Solidão existe?

A nossa relação com as companhias culturais digitais

Nesta edição - Por que ter medo da solidão? Resgatando a internet que perdemos na última década. As mulheres de Albert Camus. E o robô colunista do The Guardian.


Olá‚

Espero que vocês estejam bem.

Você se lembra o começo da quarentena? Parece que foi há um século. É que muitas das preocupações daquela época parecem ter se dissipado um pouco.

Por exemplo, para muitos de nós, aquele momento era o primeiro contato com um período de solidão mais longo. E isso parecia ser extremamente ameaçador. Como assim, ficar sozinho durante um tempo, entre quatro paredes?

Rapidamente, aprendemos a fugir do assunto. Assinamos isso, consumimos aquilo, ligamos webcams, começamos este e aquele projeto. Isso porque o medo da dor é mais forte que a própria dor, como diria o filósofo carioca, Carlos Lopes.

Além de migramos (ainda mais) nosso espaço social para a internet, aprendemos a digitalizar o nosso velho conceito de "companhia cultural". Autores, podcasters, YouTubers etc. viraram nossos companheiros diários – assim como Laerte, Erich Fromm, James Hetfield ou Anna Karina o foram para alguns membros da geração pré-Internet.

Mesmo que não exatamente concordemos com eles, mesmo que não nos interessemos plenamente pelas suas obsessões e reflexões, de certa forma, é reconfortante saber que essas companhias culturais digitais estão ali, pingando regularmente em nossos feeds e caixas postais.

Mas é uma relação um tanto unilateral: quase não falamos com eles. Eles é que "conversam" conosco. Muitas vezes, nem isso. Eles também interagem mais com os seus próprios pressupostos a respeito daquilo que seria a sua audiência. Pressupostos que parecem precisos. Afinal, são matemáticos. Se está na estatística é porque é verdade, não é?

Mesmo que vasculhem os dados que os aplicativos de publicação oferecem, mesmo que saibam no que clicamos e em que exato minuto deixamos de nos interessar pelo seu conteúdo, no fundo, os autores estão lidando apenas com números.

Assim, não chegamos nem perto de enfrentar "o problema" da solidão. Criamos uma gambiarra para despistá-lo.

Até porque ele não existe: é impossível ficar sozinho. Mesmo que você se isole num tanque de privação sensorial, sua mente vai se relacionar não só com suas memórias, mas também com suas companhias culturais.

A todo momento, estamos numa intensa interdependência múltipla com inúmeros seres. Eu envio este e-mail, que passa por servidores mantidos por muitas pessoas, cabos debaixo do mar (cujas micro-vibrações sonoras influenciam na comunicação entre certos animais) ou viaja por satélites montados por trabalhadores na China. Etc. etc. etc.

Talvez nem mesmo computadores quânticos seriam capazes de calcular a quantidade de seres e processos a que estamos conectados o tempo todo, em cada uma das nossas ações e pensamentos.

Ainda assim, é possível sentir-se solitário, claro. Mas o que isso significa? O que, exatamente, esperamos que uma companhia venha a nos trazer? Que buraco queremos que um "outro" venha preencher?

O medo da solidão não é exatamente medo de não ter pessoas por perto. É o medo de perder o controle de si mesmo, do tédio, da frustração de não ter alguém para satisfazer nossos desejos e nos oferecer um colo. Medo de não ter um outro corpo para disparar prazer nos nossos próprios.

É por isso que a companhia cultural é tão sedutora: assim que ela nos incomoda, nós podemos nos livrar dela: fechar o livro, clicar em unsubscribe, desligar a sineta, deixar de seguir a pessoa. Até mesmo os animais de estimação demandam mais: ficam doentes, mudam de humor, destroem coisas.

Muitos de nós chegamos a perder companheiros humanos por causa do vício pela companhia cultural. Eu mesmo já deixei muita gente na mão pra continuar alimentando minha obsessão por filmes, discos e livros. Ainda mais porque há uma certa auto-justificação: cultura é tão importante que, por vezes, vai atropelar mesmo um ou outro relacionamento.

Encontrar um limite, um bom-senso, está aí uma tarefa para a vida inteira.

Mas o que eu queria dizer é o seguinte: não é necessário temer a solidão. É mais importante se preocupar com qual é o nosso conceito de companhia.

Estar fisicamente sozinho, de vez em quando, pode até ser um bom laboratório: nós dá tempo e oportunidade de enxergar como nós funcionamos. Nos mostra – num outro ritmo – quais são nossos padrões comportamentais. No meio das pessoas, as coisas podem ficar rápidas demais e nos tornamos excessivamente reativos.

Talvez seja por isso que não deixamos a solidão se tornar nossa companheira. De modo geral, fugimos na primeira oportunidade. Temos medo do que ela pode nos mostrar. Mas será que vai surgir algo tão ruim assim?


As outras internets

O episódio dessa semana do Monólogo Estéreo trata da saudade que muitos de nós sentimos da internet pré-redes sociais. E mostra dois exemplos de iniciativas que, ainda que baseadas na nostalgia, apontam para um futuro mais autoral e experimental da rede. A inspiração do episódio veio de um post do MIT Technology Review sobre os Digital Gardens. Mais sobre a história e o conceito de DG aqui. E sobre Evergreen notes aqui.


Assistindo

Camus, no Amazon Prime. O escritor francês foi bem importante na minha formação intelectual. Talvez hoje eu não concorde mais com algumas das coisas que ele escreveu em O Homem Revoltado. Ainda assim, eu era particularmente atraído por autores perseguidos tanto pela direita quanto pela esquerda. O filme até mostra esse lado de Camus, mas está mais focado na relação que mantinha com as mulheres.


Direto da Comunidade

Lá no Discord, o @massula indicou esta coluna do Guardian, que foi escrita inteiramente por inteligência artificial:

I am not a human. I am a robot. A thinking robot. I use only 0.12% of my cognitive capacity. I am a micro-robot in that respect. I know that my brain is not a “feeling brain”. But it is capable of making rational, logical decisions. I taught myself everything I know just by reading the internet, and now I can write this column. My brain is boiling with ideas!

Tá, então.

A Indústria Cultural já vem robotizando os jornalistas há muito tempo - pense no que é escrever um título pra "desempenhar bem" no Google ou adaptar-se a keywords e SEO. Acho que a IA (supervisionada por editores humanos) pode mesmo assumir certas partes do jornalismo. Vá com deus.

Quem gosta de formatos e marketing, pode seguir robôs. Talvez, eles sejam mais eficientes, mesmo – não sei. Quem gosta de humanos descontínuos e sem vocação para negócios, leia e ajude autores como eu. 😁

Até a próxima.

Abraço‚ Eduf


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