Sem fugir do caos

O filme "Matthias & Maxine" quer ver o que tem alí, no olho do furacão

Olá,

Tudo bem?

Nesta semana, assisti a "Matthias & Maxime", o premiado filme de 2019 de Xavier Dolan (está no Mubi).

A história mostra dois amigos de infância. Ambos têm por volta de 20 e poucos anos e estão começando a consolidar suas identidades como adultos. Mas o cenário em que isso acontece é bem diferente pra cada um deles.

Matthias

Matt é um advogado vindo de uma família de classe média. Confronta-se com o tédio e ressentimento de ter que começar num trabalho cheio de hipocrisia e valores duvidosos. E, aqui, Nolan se mostra um cineasta com um senso de humor sensível e interessante.

Um dos primeiros trabalhos de Matt é acompanhar (e entreter) um outro jovem advogado, norte-americano, em visita profissional ao Canadá.

Os dois vivem em universos psicológicos paralelos: Matt é introspectivo e está no meio daquele processo no qual a pessoa não consegue parar de se comparar aos outros, em busca de sua própria identidade.

O visitante é agressivo, acelerado, hedonista e cheio de autoconfiança. Matt desenvolve um misto de fascinação e asco por ele. E percebemos tudo isso apenas pela montagem do filme e nas trocas de olhares.

Maxime

Já Max, vivido por Nolan, mora num bairro pobre, cuida da mãe dependente química e violenta, além de ter uma mancha vermelha que cobre parte do lado direito do seu rosto.

Sem perspectivas em seu país, decide migrar pra Austrália. A mancha e a pobreza são seus "desafios" de nascença. Não há como apaga-los.

& (o que está entre os dois)

Essa é a primeira tensão de fundo que permeia todo o filme: a quebra do grupo, a ausência do amigo.

É uma história sobre a característica borbulhante e ansiosa dos momentos de transição: quando o passado não funciona mais e o futuro está nublado e incerto.

De um lado, a nostalgia da inocência perdida. De outro, o medo de não entender direito o cenário que parece se delinear à frente.

De alguma forma, há a constante intuição de que estamos perdendo o controle, de que, a partir de agora, teremos que desenvolver a habilidade de negociar. Na verdade, assistimos à dissolução da fantasia infantil de que podemos controlar totalmente a vida.

Que filme pra se assistir na nossa época – ainda que ele seja anterior ao COVID-19 e certas condições políticas que vivemos.

É preciso enfatizar que "Matthias & Maxime" quer nos manter alí, saboreando a transição. Diligentemente, Nolan evita sair dela.

Tanto que somos (praticamente) obrigados a aguentar várias festas de despedida, bem no estilo colegial, com muitas conversas desconexas, piadas internas e algumas drogas. Um adeus que sempre é adiado.

Quem sou eu, agora?

Numa dessas festas, surge a outra maior tensão da história: Matt e Max são "convencidos" a participar de um filme amador, no qual precisam encenar um beijo entre eles. A partir daí, ambos percebem que a relação dos dois vai além da amizade.

Mais uma identidade pra colidir com as outras, que já estão num processo dinâmico de fusão e dissolução: "sou gay, sou bi?"

"Matthias & Maxime" parece um filme casual, despretensioso, com fotografia simples e até cru. Você entende porquê, ao assistir à entrevista de Xavier Nolan, que o Mubi embedou depois dos créditos do filme: Nolan diz preferir os mestres "vira-lata", o segundo escalão da Nouvelle Vague, os cineastas que não são imediatamente vistos como grandes inovadores. Nolan é da sutileza. Ainda que no meio de uma festa de adolescentes.

Enfim, pra resumir numa só frase, tldr: "Matthias & Maxime" é um filme pra quem decide olhar direto nos olhos da transição e ficar alí um tempo.

Se você assistir até o final, talvez se lembre disso.


Onde meu vira-lata está?

Por falar em vira-latas, o episódio desta semana do Monólogo Estéreo, parte de um documentário sobre Steve Ditko, o recluso e misterioso criador do Homem Aranha, cujo personagem Mr. A inspirou Alan Moore a criar o Rorschach.

Acabo discutindo nossa paixão pelos ex-losers, pelos salvadores anônimos ou personagens que nunca são reconhecidos pela sociedade, mas que, num certo momento, acabam por “mostrar ao universo” que estavam certos.

Por que adoramos uma grande e sofrida redenção, numa sociedade tão viciada em conveniência? Não que eu tenha uma resposta, exatamente, mas ouça lá.


Site novo

Eduf.me é o meu novo site / blog / digital garden estilo das antigas. Ainda não tem muita coisa lá, mas vai virar a central do meu trabalho on-line daqui pra frente. É que vou evitar (ainda mais) as redes sociais daqui pra frente. Se achar que vale, passe lá.


Uma perguntinha…

Vocês acham que vale ter imagens na newsletter? Apesar dela se chamar .TXT, né? Talvez tivesse ficado legal no texto de hoje, com fotos do filme.

Então é isso.
Boa semana.

Abraço,

Eduf


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