Conheça a si mesmo. Só que não

Sócrates deveria usar um Apple Watch?

Nesta edição – Self-tracking é autoconhecimento? Playlists pra amantes de raridades do soul e funk dos anos 70. E tento dar uma de Black Mirror.


Olá,

Espero que vocês estejam 99.9% melhores que na semana passada.

Vocês assistiram ao evento da Apple ontem?

Um dos focos da empresa foi transformar o Apple Watch numa ferramenta ainda mais poderosa de "auto-vigilância" (self-tracking). Mas, espere: este não será outro texto reclamando de como as empresas de tecnologia estão invadindo nossa privacidade.

Vamos conversar sobre outra coisa: nossa atual obsessão em medir a nós mesmos, a nos colocar em números e gráficos.

O ditado atribuído ao deus Apolo "conhece a ti mesmo", ou o significado da frase "conhecer-se é esquecer de si", ligada ao Zen Budismo, essas coisas parecem ser radicalmente diferentes do self-tracking.

Num primeiro momento, ambas são baseadas na ideia de navegar pela vida com menos turbulências, de domar as incertezas. Pra explicar de uma maneira bem simplista, o objetivo inicial (enfatizo: inicial) é evitar meter a si mesmo e os outros em encrencas.

Porém, há uma diferença fundamental aqui.

Explico.

1. Autoconhecimento é auto-corrosivo

Quanto mais nos conhecemos, menos somos capazes de garantir "isso sou eu".

Percebemos que somos um conjunto de padrões biológicos e sociais complexos, que mal conseguem se manter conectados. É como se fôssemos um cano todo remendado com durepox: se você olhar direito, sempre há (ou haverá) algum vazamento.

Por isso, a todo momento, gastamos tempo e energia pra reajustar e re-editar nossas narrativas pessoais. Estamos sempre nos desagregando e tentando nos reconstruir: "eu sou assim, sirvo pra isso, meus gostos são esses, meu passado é este, meu futuro será assim".

(Parênteses: é por isso que filmes como Estou Pensando em Acabar com Tudo são, de certa forma, mais realistas do que outros títulos mais lineares.)

2. Autoconhecimento desenvolve empatia

Aos nos conhecermos, vemos o quanto somos parecidos e estamos interconectados uns com os outros. Assim, é o oposto do narcisismo.

3. Autoconhecimento aumenta a humildade

Percebemos o quanto somos dependentes, não só de humanos, mas de animais, plantas, processos físico-químicos, sociais e políticos. De memórias, de conceitos. E, em especial, do erro e da incerteza: quantas descobertas e encruzilhadas históricas nasceram do poder criativo das cagadas, por assim dizer.

(James Burke, estou me lembrando de você.)

4. Autoconhecimento é crítico

Leva ao questionamento tanto da sociedade quanto do próprio conhecimento.

Já o self-tracking é uma tentativa de comparar padrões. Quantos passos por dia eu preciso pra ser "saudável"? Quantos likes pra me sentir amado? Qual é o meu número de engajamento? Quantos assinantes faltam pra habilitar certas funções do YouTube? Como está o oxigênio do meu corpo de acordo com os padrões científicos vigentes?

É claro que estatísticas podem ter utilidade. Self-tracking é uma ferramenta e, como tal, pode ser subvertida, usada de diversas maneiras.

Mas, também, toda ferramenta reflete a política, a economia e as ideologias da sua época. Assim, não há como negar que o conceito de self-tracking traz embutido uma qualidade de estímulo do desejo, do consumo, de comportamentos obsessivos, controladores e até narcisistas.

Enfim…

Será que um dia também poderemos dizer que “medir-se é perder as medidas”? Digo, não no sentido fitness.


Eu amo meu algoritmo

Nesta semana, o Monólogo Estéreo dá uma de Black Mirror e investiga uma sociedade totalmente controlada por (benévolos) algoritmos. Depois que terminei o episódio, fiquei com dor na consciência. Ele está muito sorumbático, taciturno e melancólico (só pra enfatizar). Acho que preciso reler o True Perception, do Chogyam Trungpa Rinpoche.


Ouvindo

Toda a semana, o Soul Preacher vasculhas arquivos e obscuridades da soul music e do funk dos anos 70 e compila uma mixtape, no mínimo, curiosa. Tipo disco que ensina a jogar xadrez por meio de grooves ou Mulheres Subestimadas do Soul. Comece por aqui. Se raridades é a sua vibe, vale dar uma passada na Downtown Soulville (que só toca compactos em vinil).

(Bonus: Smoke - banda de funk / jazz instrumental psicodélico de San Francisco, EUA.)

Até a próxima.

Abraço‚ Eduf


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